“Ai, mais uma afta na boca! Deve ser por causa daquela feijoada que comi ontem — estou com ‘calor interno’!” Essa é uma frase comum entre pacientes que sofrem com úlceras orais recorrentes. No entanto, a explicação popular de “calor interno” ou “fogo no corpo”, embora culturalmente arraigada, não tem respaldo científico. A maioria das aftas — especialmente as recorrentes — não é causada por desequilíbrios dietéticos ou excesso de especiarias, mas sim por uma resposta imunológica anômala.
Do ponto de vista clínico, a afta é uma lesão inflamatória superficial da mucosa oral: uma ruptura localizada do epitélio que expõe tecidos subjacentes, resultando em uma pequena ulceração arredondada, com bordos avermelhados e fundo esbranquiçado ou amarelado. Essa lesão provoca dor intensa, especialmente durante a alimentação ou a fala, e costuma durar de 7 a 14 dias em casos leves.
O que muitos desconhecem é que cerca de 60% a 70% dos pacientes com aftas recorrentes apresentam distúrbios imunológicos subjacentes. Estudos indicam que há uma ativação exacerbada de linfócitos T, levando a uma resposta autoimune em que o sistema imunológico reconhece erroneamente as células epiteliais da mucosa bucal como estranhas e as ataca. Esse processo desencadeia necrose tecidual local e formação da úlcera — explicando, assim, sua recorrência e persistência em alguns indivíduos.
O tratamento moderno dessas lesões deve ser multifatorial: aliviar a dor, controlar a inflamação, prevenir infecções secundárias e acelerar a regeneração tecidual. Nesse contexto, os medicamentos tópicos de uso local ganham destaque — especialmente os que combinam ações complementares em um único formulário. Entre eles, destaca-se o gel composto de camomila e lidocaína (conhecido comercialmente como Gamida).
Esse gel age por três mecanismos farmacológicos distintos e sinérgicos:
Primeiro, o cloridrato de lidocaína proporciona anestesia tópica rápida e eficaz. Ao bloquear canais de sódio nas terminações nervosas da mucosa, ele interrompe a transmissão dos impulsos dolorosos, oferecendo alívio sintomático em minutos após a aplicação.
Segundo, os componentes anti-inflamatórios e antimicrobianos — extrato alcoólico de camomila e timol — atuam de forma coordenada. A camomila inibe a ciclo-oxigenase e reduz a síntese de prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias, além de demonstrar atividade contra *Staphylococcus aureus*, um dos patógenos mais comuns em feridas orais. Já o timol, com potência antimicrobiana superior à do fenol e toxicidade significativamente menor (aproximadamente um quarto), amplia o espectro de ação contra bactérias, fungos e vírus, diminuindo o risco de infecção secundária na área ulcerada.
Terceiro, há evidências experimentais e clínicas de que o extrato de camomila estimula a proliferação de queratinócitos e modula fatores de crescimento, como o EGF (fator de crescimento epidérmico), acelerando a reepitelização. Estudos em modelos animais confirmam que o gel promove redução dos níveis locais de TNF-α e IL-6 — marcadores-chave da inflamação — favorecendo, assim, a cicatrização tecidual.
Essa tríade terapêutica — analgesia imediata, controle inflamatório e regeneração mucosa — torna o gel composto de camomila e lidocaína uma opção clinicamente fundamentada para o manejo sintomático das aftas leves a moderadas. Contudo, é essencial ressaltar que seu uso deve ser orientado por profissional de saúde. Casos de aftas frequentes (mais de seis episódios por ano), prolongados (superiores a três semanas), extensos ou associados a outros sinais sistêmicos — como febre, perda de peso, diarreia crônica ou lesões cutâneas — exigem investigação diagnóstica mais aprofundada, pois podem sinalizar condições como doença celíaca, síndrome de Behçet, deficiências nutricionais (ferro, vitamina B12, ácido fólico) ou doenças autoimunes sistêmicas.
Em resumo, abandonar a ideia simplista de que “afta é só calor interno” é o primeiro passo para um manejo mais racional e eficaz. Compreender sua natureza imunopatológica permite adotar estratégias terapêuticas baseadas em evidências — como o uso direcionado de géis tópicos com múltiplos mecanismos de ação — e, sobretudo, identificar precocemente os casos que demandam avaliação especializada.